Invejosa



Toda pessoa que faz pose de vítima do mundo, na verdade é uma invejosa e tenta conquistar no choro aquilo que as outras pessoas conquistaram, muitas vezes com muito suor e trabalho duro.

E uma invejosa sabe identificar outra com muita facilidade.


***

Eu sinto inveja de várias pessoas.
Eu sinto raiva das coisas que eu vejo outras pessoas conquistando e ganhando.
Eu acho injusto que eu não receba o mesmo tipo de atenção, cuidado ou benefícios que eu vejo outras pessoas ganhando.

Eu sei que tem gente que recebe menos do que eu, mas eu sempre estou olhando para quem tem mais.
Eu não quero me esforçar para conquistar o mesmo que eu vejo as outras pessoas ganham ou têm.
Eu quero que tudo seja entregue para mim, só porque eu existo e mereço.

Eu costumo olhar para quem tem menos do que eu e, ao mesmo tempo que sinto pena, ou seja, me sinto superior, eu me sinto com medo de ser vista com pena pelas pessoas que têm mais do que eu.
Porque na verdade eu me sinto inferior.

Eu me escondo tanto da vida por medo de ser julgada.
Ser julgada nem sempre é ruim.
Em um concurso as pessoas são julgadas e algumas saem vitoriosas e outras saem derrotadas.
Eu evito me expor porque eu nem acredito que eu possa passar pelo julgamento das pessoas e ficar na área dos vitoriosos. Eu acredito simplesmente que serei desclassificada e derrotada. Sem chances.

Falta de autoconfiança.
Foi assim que a última psicóloga me diagnosticou.
Por mais que o atendimento dela tenha sido lamentável, eu sei que ela estava certa nisso.
Mas e eu não estava na terapia justamente para trabalhar essa questão?

Tudo isso, esses sentimentos, parece que fazem um caminho neural que termina na inveja.
E, por fim, na raiva.


***

Quando eu estava na adolescência, eu costumava expressar meus sentimentos livremente em um blog aberto e com a minha identidade de conhecimento de todos. Era aceitável sentir o que eu sentia e expressar isso em palavras escritas.

O interessante é que eu nunca recebi um feedback negativo sobre o que ou a forma como eu escrevia. Eu até recebi elogios e conheci pessoas que me liam e não eram do meu círculo íntimo.

Mas eu cresci.

Eu aprendi a reprimir as minhas emoções e sentimentos.
Eu aprendi que não é simplesmente escrever, é preciso saber escrever.
Eu aprendi que não é aceitável uma mulher adulta ter sentimentos fortes e muito menos, expressá-los.

Passei o final da adolescência em um relacionamento abusivo, onde eu aprendi que os meus sentimentos não eram válidos, eram incorretos, eram fantasia da minha cabeça, eram bobagem, na verdade as coisas não eram bem assim…

Mas o problema com a raiva não começou aí, ele se agravou ali.

A raiva, minha velha conhecida.

Quando eu era bem pequena, antes dos cinco anos, eu me lembro de situações que eu sentia muita raiva. Eram situações até bobas, por exemplo, uma criança de 3 a 4 anos, não aprendeu ainda a como lidar com suas frustrações, então é super comum que, ao perder em um jogo de videogame, por exemplo, queira jogar ou bater o controle em algum lugar.

Bem, desde lá eu ouço sobre o quanto eu sou descontrolada.

Mas uma criança dessa idade não pode ser descrita como descontrolada! Porque é óbvio que ela nem desenvolveu as redes neurais responsáveis pela regulação emocional, nem foi ensinada a nomear e lidar com suas emoções. Ao menos na minha família, ninguém me ensinou, aliás, ensinou sim: fui ensinada desde bebezinha a engolir minhas emoções em forma de comida, chegando ao alívio emocional quando estivesse cheia e muito mais do que satisfeita.

Eu tenho estudado maneiras de expressar a raiva de forma saudável, mas eu confesso que, mesmo que eu seja psicóloga, ainda sinto dificuldades em mudança comportamental. Eu me esqueço das coisas que eu deveria fazer, dos momentos que eu deveria buscar outros estímulos, enfim, sempre acabo na mesma.

Uma das coisas que eu sempre fiz quando estava com raiva era escrever. Muito provavelmente é por isso que eu estou aqui, escrevendo, tentando organizar os pensamentos e colocando pra fora aquilo que eu não tenho coragem de dizer em voz alta.

Gritar com outras pessoas não é adequado.
Gritar no travesseiro é adequado, mas pode te fazer parecer descontrolada se alguém te ver fazendo isso.
Cantar gritando é uma forma de colocar a energia pra fora de maneira saudável e aceitável socialmente.
Dançar e pular, enquanto canta gritando vai ser altamente aceitável se você estiver em um show, mas se for em casa e alguém te ver, vai ser constrangedor ou muito engraçado.
Sair para caminhar ou correr ajuda muito. Distrai a mente, desvia o foco da raiva e mexe o corpo.

O mais importante é que mexer o corpo faz com que o cortisol liberado pela raiva circule pelo corpo e seja despejado, sem fazer morada. Faz com que os músculos que estavam tensos possam relaxar por causa da endorfina, que é certeza que os exercícios ajudam a liberar.

Tá ok, mas isso vai resolver o problema inicial que me deu raiva, a inveja?

Eu posso tentar usar a inveja como uma dica do que eu gostaria de ter ou fazer em minha vida. O que me chamou a atenção na outra pessoa? Foi algo da carreira, aparência ou um privilégio? Uma viagem, um objeto ou um hábito? O que dessas coisas eu sinto que estão faltando em minha vida? Estarei disposta a pagar o preço da conquista? São boas perguntas a se fazer, para reorganizar os pensamentos e digerir os sentimentos de forma saudável.

Há um tempo, lembro-me de que eu não sentia inveja. Foi quando eu me sentia contente e grata com todas as coisas que eu tinha e com as que eu não tinha. Porque eu sabia que eu tinha o suficiente para viver bem, ao mesmo tempo que as coisas que me faltavam traziam objetivos e sentido para a minha vida.

Hoje eu tenho muitas coisas, acumulei muitas experiências boas e ruins, conquistas… E o maior aprendizado foi que acumular o que for, objetos, lembranças, títulos, nada disso traz felicidade per se. A quantidade não é mais importante do que a atenção e o tempo que eu dedico aos meus objetos, até quando são só decorativos. Eu tenho a impressão de que o caos cotidiano tem engolido o meu tempo e energia há muitos anos, e eu não tenho nem olhado, nem interagido o suficiente com minhas coisas para me sentir satisfeita em tê-las.

São muitas coisas e pouco tempo.

Veja bem, acho que encontrei a razão da minha inveja! Eu sinto que eu não tenho tempo e energia para me dedicar às atividades que dão sentido à minha vida.

Eu tenho medo de comprar uma câmera fotográfica ou de me matricular em mais um curso e não fazer nada com isso.
Eu tenho medo de comprar uma bicicleta e deixar ela parada no meio da casa, como um símbolo do meu fracasso.
Eu tenho medo de iniciar uma nova pós-graduação e não usá-la para nada, de novo.

Então eu não estou fazendo.

Fico paralisada diante do possível fracasso.

Sentindo-me o próprio fracasso.

Foi mais ou menos por aí que eu decidi voltar a escrever. Eu tenho vários computadores à disposição, o dia e noite inteiros, celular na mão o tempo todo. Só me faltava um pouco de inspiração, e para isso a raiva é um ótimo combustível.

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