Funeral de uma amizade
Não houve adeus, nem sequer uma palavra. Ficou subentendido no silêncio que pairou entre nós, depois daquela última tarde que compartilhamos o mesmo espaço.
Não entendi muito bem, no começo, mas com o tempo as coisas foram ficando cada vez mais claras.
O que você queria, status, imagem, disponibilidade, eu não podia te dar. E o que eu precisava, empatia, acolhimento, escuta, você não podia me dar.
Tudo tem de ser perfeito, para você. Mania de controle, de tudo! De como vai servir o jantar, qual bebida, que tipo de roupa e acessórios são os corretos, qual é o lugar certo, tudo pensando em como vai sair na foto. Não é à toa que as suas outras amigas são parecidas com você, se vestem como você... As que ainda não são, logo estarão usando as mesmas roupas, os mesmos acessórios, indo aos mesmos lugares... que você decidiu!
Na internet, o seu mundo é perfeito, esteticamente delineado para passar a imagem de uma pessoa muito bem resolvida, charmosa e interessante. E eu vou te dizer que sim, você realmente é um pouco disso, mas não tudo isso. Você é normal, como outras pessoas, tem alguns problemas de autoimagem (deve ser muito difícil ser irmã de alguém com a autoimagem tão distorcida quanto a sua irmã), tem problemas de autoestima, mas principalmente, você tem problemas em se relacionar com as pessoas. Você é uma pessoa muito difícil. E chata.
São muitas críticas por centímetro quadrado do seu corpo que saem da sua boca por hora.
E egoísta, pois sempre queria ir nos lugares mais caros, ou escondidos, melhor se fosse caro e escondido, porque nunca fomos nos mesmos lugares que você ia com as suas outras amigas, as ricas plastificadas. Por isso, toda vez que a gente ia se ver, eu começava a ficar ansiosa, insegura sobre o que eu ia vestir, sobre o lugar que estávamos indo, que geralmente era muito mais caro do que eu poderia pagar e sobre se eu ia conseguir chegar na hora, ou ia me atrasar de novo. E você não perdia uma oportunidade de apontar uma falha, ou humilhar por causa de alguma ignorância, ou às vezes, só o fato de a pessoa ter menos graduação já era motivo para ser tratada como inferior em uma conversa.
Parece que não percebe o quanto é privilegiada financeiramente, sempre foi. Mesmo quando os seus pais se afundavam em dívidas para te enviar à Europa para estudar (duas vezes!), você foi muito privilegiada. Então se hoje, você tem uma formação acadêmica exemplar, em uma instituição renomada, eu te digo, e repito: fruto de muito privilégio e esforço, claro. Um esforço privilegiado, que já saiu na corrida da vida, bem à frente de seus colegas. E aí vem a questão de morar com os pais, não ter de lidar com um monte de responsabilidades estúpidas, e poder focar nos estudos e na carreira.
Parabéns, você tem o privilégio de merecer um parabéns.
Tem certas coisas que somadas estrapolam o limite de uma amizade saudável. E você era uma pessoa classificada como melhor amiga na minha vida! Mas pequenas coisas me mostraram que na verdade, eu não podia contar com você. Que esse tipo de expectativa era uma fantasia. E o mais assustador, parece que eu conhecia muito pouco sobre você.
Eu sempre fui muito aberta, compartilhei todos os lados da minha vida, trabalho, relacionamentos, sonhos, inseguranças. Mas você não. Eu não sabia dos seus rolos e relacionamentos, pouco soube das suas inseguranças abertamente, pois pouco você compartilhou, e pouco soube de suas aspirações. Ou era só isso, mesmo? E eu achando que você era muito mais profunda do que realmente era?
Eu te ajudei com coisas concretas, sabe? Quando você começou a trabalhar naquela escola, eu te mostrei tudo que eu sabia sobre o assunto, afinal, eu já tinha bastante experiência na área. Compartilhei documentos, modelos, estratégias, livros, tudo o que eu tinha. Quando você quis fazer aquele insta profissional comigo, eu fiz tudo o que podia, ensinei estratégias de marketing digital, incentivei, inclusive o nome, fui eu quem criou. Mas aí, estando tudo pronto e planejado, você decidiu que queria trilhar esse caminho sozinha, pois eu estava demorando demais para ter dinheiro para pagar alguém para tirar fotos profissionais, para fazer as artes dos posts... Pois tudo precisava ser nada menos do que perfeito. Na última vez você me chamou porque queria escrever um livro, fazer produtos, vender nosso conhecimento. Mais uma vez te enchi de ideias, mas quando eu estive indisponível, eu me tornei um incômodo. Eu estava atrasando o projeto, precisava ser naquela hora, naquele momento.
A minha vida estava em transformação total, eu estava me adaptando a um novo trabalho, tudo novo, começando uma nova carreira do zero. Eu estava mudando de casa e me adaptando à vida de casada, enquanto lidava com dores pelo corpo que me incapacitavam parcialmente. Nada, nenhuma palavra de apoio.
Por fim, o silêncio completo.
***
Olhares, expressões faciais, postura corporal, palavras... várias formas de demonstrar superioridade, impaciência, crítica, desdém. Nas últimas vezes que nos encontramos, você parecia querer sair correndo dali. Eu imaginei que alguma coisa estivesse indo mal na sua vida, mas você se apressou em defender-se dizendo "não estou deprimida!", mesmo que sinais claros se apresentavam na sua fala, na sua forma de agir, nas situações e sentimentos que descrevia. Você é perfeita demais para estar deprimida, não é?
Aquele que é perfeito, é inumano, irreal, inalcançável, e, de uma forma ou de outra, de tanto afastar as pessoas, temendo ser descoberto em sua imperfeição, acaba sozinho.
É por isso tudo que hoje eu digo adeus.