O cocô do cavalo do bandido e suas repercussões em minha mente, anos depois
Eu andei lembrando por estes dias, que na adolescência, um grupo de amigos, meus amigos e amigas mais íntimos, acharam divertido me enviar um cartão virtual, daqueles animados, que tinha como música tema algo parecido com isso
"eu sou
o cocô
do cavalo do bandido!"
Mais tarde, isso deve ter virado um meme, pois não sei o motivo, essa musiquinha ficou gravada em minha mente. E, não raro, ouço alguém usar essa expressão. Na hora que recebi, ou que me mostraram, eu lembro que não estava sozinha, foi uma zoeira em grupo. Eu até demorei para entender, a minha primeira reação foi rir, eu demorei pra entender o que aquilo queria dizer, eu achei que era só mais um vídeo engraçado, como aquele da havaianas de pau. Só fui entender depois, em casa, e me lembro que fiquei triste e me sentindo, literalmente, um cocô.
Dias atrás, décadas depois, me peguei refletindo sobre isso. Pode me chamar de melancólica, rancorosa, pois eu sou mesmo. Mas eu ando me questionando o que eles quiseram dizer com isso. Se era o que eles pensavam de mim, ou se era dessa forma que eu me apresentava a eles.
Eu nunca fui o primor da autoconfiança e segurança nas minhas capacidades. Eu cresci acreditando ser inadequada, sempre criticada por minha aparência ("está gorda!"), pelo meu jeito ("caminha direito, menina, sempre tropeçando", "olha lá o jeito que ela corre, parece uma tartaruga com a mochila nas costas") e pela minha capacidade de executar tarefas, principalmente as domésticas ("não é capaz nem de lavar uma louça!", "vamos, anda! Ah, deixa que eu faço, você é muito lerda!"). Nunca fui a mais rápida no Stop!, nunca fui a mais ágil no videogame, dificilmente ganhava nos jogos de tabuleiro, muito menos nos esportes. Uma garota esquisita, que preferia ficar pelos cantos no recreio, lendo alguma coisa e ouvindo música no walkman. Eu só era boa nos estudos. Isso eu era boa. Não precisava nem estudar pra tirar boas notas, ficar entre as melhores. Mas isso não era valorizado na adolescência, né, em nenhuma idade, na verdade. Pra completar o pacote, eu era feia, e teve uma época que era fedida. Fucking puberdade e falta de orientação da família.
Eu me sentia, mesmo, o cocô do cavalo do bandido.
***
Enquanto adolescente e jovem adulta, nunca me senti realmente pertencente aos espaços que frequentei, seja no lazer, nos estudos ou no trabalho.
Depois de trocar daquela primeira turma de amigos de infância, fato que não aconteceu muito por vontade própria, mas sim por força do isolamento e discriminação que impuseram sobre mim, eu encontrei algumas amigas que também eram "mal vistas" na escola. Um ano mais novas do que eu, eram meninas diferentes do comum, com gostos peculiares e um visual mais estranho ainda. Eu me senti aceita e amada por algum tempo, até que começaram as intrigas, mas não é esse o tema aqui. O fato é que mesmo elas sendo diferentes das outras, e eu me sentir aceita, ainda assim eu era diferente delas. Enquanto elas bebiam muito, fumavam, estavam sempre pelas ruas, vagando, eu até gostava de sair, mas não bebia, muito menos fumava. Elas estavam sempre ficando com uns caras gatos, e eu não ficava com quase ninguém, quando ficava, eles não tinham muito destaque. Eu não compreendia as intrigas que eventualmente apareceram. Eu ficava perdida e sem ação. Quando finalmente percebi o que estava acontecendo, eu me senti manipulada e enganada. Bem, o fato foi que um menino que fazia parte do nosso grupo, ele gostava de inventar histórias e provocar atritos. Não me surpreende que ele tenha se tornado escritor depois de adulto. Enfim, tudo isso pra dizer que eu me sentia aceita, e mesmo assim, eu me sentia diferente delas.
Poucos anos depois, quando estava na faculdade, eu pertenci por pouco tempo a um pequeno e seleto grupo, que, após perceber o quanto eu me doava e não recebia o mesmo em troca, implodiu. Bem, o período da faculdade foi um tempo difícil para mim. Eu fui ficando cada vez mais tímida e com medo da opinião das outras pessoas. Houve tempos em que eu já não sabia mais como me comportar, eu fazia só o que eu achava que as outras pessoas queriam que eu fizesse, tamanho o desejo de pertencer e ser aceita. Um medo intenso e apavorante de ser rejeitada. Eu precisei de alguns anos para voltar a me aceitar e me reconhecer.
Anos depois, já uma jovem adulta, eu trabalhei por alguns anos em uma loja, com mulheres incríveis, que eu admirei e ainda admiro. Eu tentei fortemente me tornar amiga delas, mas nossos gostos, nosso jeito, tudo muito diferente. Tão logo o vínculo empregatício terminou, o vínculo afetivo foi rapidamente dissipado. Eu as acompanho pelas redes sociais e vejo que algumas ainda mantém um vínculo de amizade ativo e próximo, enquanto eu flutuo para cada vez mais longe.
No trabalho seguinte, já adulta, eu tentei ser espontânea, colaborativa e acolhedora, procurei fazer amizades, da mesma forma que eu via elas sendo amigas entre si. Foram anos e anos de convivência, mas me impressionava que, quando era para fazer algo divertido juntas, eu raramente fui convidada. Desde um jantar na casa de alguém, até a um simples café de lanche da tarde. O raramente tornou-se nunca. E eu ouvia os relatos dos momentos que elas partilharam durante as férias, naqueles encontros aos quais não fui convidada. Eu sei que éramos muito diferentes umas das outras, e eu até já compreendi que buscar amizades no ambiente de trabalho não é das melhores formas de fazer amigos, mas quando eu percebi que eu não era chamada para os encontros divertidos, mas só quando precisavam de ajuda com o trabalho (e olha que demorou bastante!) eu fiquei bastante chateada.
Chateada por ver que é um padrão que se repete.
Não carreguei amigos da época da escola, nem da faculdade, nem dos meus trabalhos anteriores. As amigas e amigos que tenho hoje, eu conheci na balada, basicamente. E elas e eles foram ficando... São as amizades mais constantes e antigas que eu tenho, um bando de gente que, hoje em dia não tem muita coisa a ver um com o outro, mas continuamos tendo um vínculo. Eu continuo me sentindo constantemente distante delas, mas eu sou apegada a esta ideia de que são as minhas melhores amigas. E eu continuo sentindo que elas se gostam mais entre si do que de mim.
Isso me leva ao cocô do cavalo do bandido, novamente. São as pessoas que gostam menos de mim, ou eu que me gosto menos?
***
Soturna, fui classificada como soturna em uma dinâmica de grupo, durante uma capacitação. E eu achando que estava conseguindo disfarçar, me apresentar como uma pessoa alegre, espontânea e vivaz. Novamente, em tom de brincadeira, mas me pegou de um jeito...!