Revelações nada secretas

 Quando eu ouvi um áudio "vazado" da minha sogra falando com desdém sobre mim, "a namorada do xxxx, que eu nem gosto muito", inicialmente eu me senti ultrajada, em seguida, senti-me de alguma forma resignada com a confirmação de um fato que eu já sabia.

Ela nunca pareceu conseguir disfarçar muito bem a resistência acerca do fato que seu filho havia encontrado alguém com quem ele queira compartilhar a vida.

Mas o fato é que o áudio foi só o começo de algumas semanas de desconforto e, por que não nomear o óbvio? Humilhação.

Eis que minha sogra vazou este áudio dois dias antes de chegar em meu lar para passar três semanas, durante as festas de final de ano. Eu assumi a postura de uma pessoa resignada e o mais digna possível, imaginando que ela estava se sentindo mal de ter falado uma coisa dessas. Imaginei que ela estava se sentindo culpada e querendo pedir desculpas. Então eu fiz pouco caso da situação, aliviando o clima geral com falas tranquilas e descontraídas. Qualquer pessoa normal estaria se sentindo ao menos um pouco culpada, qualquer pessoa normal estaria querendo uma oportunidade para se desculpar. Mas a minha sogra não é uma pessoa normal.

Ela pediu para conversar sobre o assunto e eu disse que estava tudo bem, que não havia nada para conversar. A minha intenção com isso era de simplesmente mostrar que ela não precisava se sentir culpada, a minha intenção era seguir a vida como se nada tivesse acontecido. Mas sabe por que eu não queria conversar com ela? Porque no fundo eu já sabia que ela, se fosse pedir desculpas, daria um jeito de me ofender no processo. E eu já não estou com paciência para esse tipo de drama, basicamente, tenho mais o que fazer na minha vida e muito mais com o que me preocupar.

Sendo a covarde que é, gravou um áudio de quase cinco minutos e passou alguns dias insistindo para que eu sentasse para conversar com ela, ou melhor, para eu ouvir o áudio dela. Após muita insistência, eu cedi, com a condição de que meu parceiro, filho dela, estivesse junto.

Eu deveria ter me levantado e me negado a continuar aquela sandice a partir dos primeiros trinta segundos de meias desculpas apresentadas por ela em um áudio de teor alucinante. Mas eu sou uma pessoa respeitosa, não poderia ofender a mãe do meu parceiro de uma forma dessas. O que eu ouvi em seguida só pode ter sido pensado e roteirizado por um autor de novelas.

"Quando eu cheguei aqui, eu tomei um choque! Pois eu vi que as minhas almofadas estavam pela casa"...

"Em 2017, quando eu estava limpando a minha biblioteca, você falou"...

"Em 2018, quando eu coloquei os meus quadrinhos japoneses na parede da sala de tv, quando eu voltei aqui, meses depois, eles tinham sumido"...

Foram flashbacks de situações e memórias distorcidas, picuinhas bobas, de uma pessoa que não tem coragem de assumir o que quer para sua própria vida, mesmo tendo todas as condições de fazer tudo que quiser fazer, como, por exemplo, levar seus móveis antigos e históricos, seus cristais, suas louças especiais, para seu próprio apartamento e, finalmente, vivê-los.

Eu não mereço passar por isso. Nestes dois anos de residência, eu cuidei da casa com toda a dedicação, mesmo que morar neste lugar nem fosse um desejo inicialmente meu, pois eu tenho a minha casa própria, mais de uma, aliás, mas em parceria ao meu noivo, que insistiu muito para eu me mudar, moramos onde é mais prático para ele (e para mim, também) ir ao trabalho.

Eu tomei uma decisão: na próxima visita dela, eu estarei viajando.

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