Família desestruturada
Era uma vez uma família, no início, era formada por mamãe, papai e dois filhinhos, todos muito orgulhosos. Eles moravam na bela capital paranaense, em uma grande casa. A casa possuía um jardim enorme, com árvores frutíferas. No pátio, havia uma piscina e uma área de churrasco exemplar.
A mamãe era uma excelente dona de casa, cuidava das crianças e do marido com esmero.
O papai era gerente de uma grande rede de supermercados, tinha um salário excelente e um bom relacionamento com seus filhinhos. Ele acreditava que sua esposa não deveria trabalhar fora nem estudar, só ficar em casa com as crianças.
Um dia, o papai perdeu o emprego. Diz-se que foi porque ele não aceitou participar de uma falcatrua, tipo receber uma propina, mas mais tarde a gente passa a duvidar do motivo.
Papai só sabia fazer aquilo. Vinha de uma cidade do interior paulista, onde sua família era muito influente, filho de prefeito, sabe? Então, papai, já com mais de 40 anos, sem ensino médio, vai procurar emprego nos outros supermercados da região, mas, como dito anteriormente, perto dos anos 2000, já não se contratavam pessoas sem formação e nem de "idade avançada"... Ele pensou naquilo que sabia fazer, gerenciar, e naquilo que ele gostava de fazer, beber, e resolveu abrir uma distribuidora de bebidas, lógico!
Já sem condições de pagar o aluguel da casa grande com piscina, papai mudou-se com sua família para um bairro afastado do centro da cidade, um bairro mais simples, com casas mais simples, com gente mais simples... E, sentindo-se humilhado, passou a aumentar as doses que já costumava beber antes.
Logo, a distribuidora faliu. Diz-se que foi por causa de um golpe, um grande pedido que foi entregue, mas não foi pago. Bem, quem sou eu pra dizer qual foi a real causa da falência? Mas conhecendo a dinâmica familiar, eu tenho minhas dúvidas...
Sabe, eles passaram fome por algum tempo, com muita dificuldade, decidiram mudar-se para a terra das promessas, a Dubai brasileira. Na nova cidade, a mamãe encontrou um trabalho de zeladora em um prédio na Av. Atlântica. Com o emprego, vinha a oportunidade de morar ali, ou seja, passaram a morar no endereço mais prestigiado da cidade. Combinou perfeitamente com o rei que morava na barriga deles.
Quando os conheci, moravam neste endereço, de prestígio, sim, mas também de luxo decadente. Um prédio antigo, atualmente, o mais antigo ainda em pé de frente para a praia. Uma situação de quase senzala, onde a relação de trabalho se dava com o fornecimento do trabalho da mamãe em troca do aluguel. O papai trabalhava como gerente em um mercado em um bairro afastado. O filho mais velho trabalhava no comércio e deixava 90% de seu salário na mesa de seus pais. O dinheiro que vinha do trabalho do papai, nós sabemos pra onde ia.
A dinâmica era a seguinte: o filho recebia o salário, ia ao mercado e comprava muita carne, grandes peças de pernil, arroz, feijão, etc. Chegava em casa e começavam os banquetes. Faziam-se grandes quantidades de arroz novo todos os dias, jogava-se fora o que sobrava do dia anterior, pois estava "velho". Sempre sobrava. Ao aproximar-se da metade do mês, essa família passava a comer arroz com farinha, até que, no mês seguinte, o ciclo recomeçava.
Enquanto houvesse dinheiro, haveria abundância e desperdício, pois sabiam que logo o dinheiro acabaria e passariam fome novamente. Sem planejamento, sem previsibilidade, sem reservas. Vivendo um dia após o outro.
O papai agora é vovô, a mamãe agora é vovó. Os filhos, agora são pais.
O filho filho mais velho casou-se, logo que se tornou pai, a esposa foi embora e o deixou com a criança. A criança tinha pouco mais de um ano, quando isso aconteceu. Logo, ele voltou para a casa dos pais e abdicou dos cuidados diretos com o filho, sendo constantemente extorquido pela avó, em nome da criança.
Seis meses de conta de energia elétrica em atraso, mas tem arroz sendo jogado fora todos os dias, feijão sendo cozido todos os dias, vovô bêbado todos os dias, filé mignon no prato da criança, todos os dias.
Convivi por alguns meses com essa família, em dois momentos de vida diferentes, com a distância de 15 anos entre uma vez e a outra, e foi assustador como nada mudou, só piorou.
O que eu mais quero é deixar essa família desestruturada enterrada no meu passado, se possível esquecer de todos eles, pois eu fico pensando como está tudo errado e poderia ser consertado, mas o adoecimento mental, físico e emocional é tão grande e enraizado na crença de que esse nível de controle e codependência é amor, que não há o que se fazer.
Adeus.
E tu, escrava do lar, da moradia e do marido. Escravizas teu filho da mesma forma. Isso tem nome: Codependencia.